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Notícias de Lubango

Postado em 26 abril 2010 por Cavernadeadulao

Queridos amigos,

Estamos aqui há quase três meses já. Isso significa que vamos ter que ir à Namíbia para a renovação do nosso visto (sairemos daqui na quinta 29/04).
Pedimos que estejam orando pois há os perigos da viagem: carro velho, estradas ruins (no lado Angolano) violência por causas raciais e econômicas na Namíbia, etc. Também esperamos que não precisemos ficar muito tempo lá mas como as coisas com o consulado angolano são imprevisíveis… em alguns casos se demora meses para conseguir o visto. Sabemos que o hospital precisa de nós aqui.

Por falar nisso, acho que esta tem sido a maior recompensa de se estar aqui: sentir que você está fazendo um trabalho que faz muita diferença na vida de muita gente. Tenho a impressão de que por causa do nosso trabalho muitas vidas que morreriam são tratadas; outras têm o diagnóstico correto, mesmo que não se tenha um tratamento curativo; outras, mesmo sem diagnóstico e sem tratamento adequado, seja por deficiência nossa ou por causa das dificuldades aqui (falta de exames, de remédios, etc), são tratadas de uma maneira mais humana. Me sinto muito realizado quando meu sorriso é correspondido por um sorriso do paciente, mesmo numa situação de sofrimento. De alguma forma, sinto que sou instrumento de Deus para tocar nas vidas.

Duas semanas atrás preguei no culto que fazemos semanalmente para os pacientes e preguei sobre o texto de Marcos 2, quando o paralítico é levado por seus amigos até Jesus. Comentei com os pacientes que como Jesus primeiro falou da “cura” dos pecados e só depois curou sua enfermidade mais visível, nossa ambição como hospital cristão era semelhante: oferecer remédio para “a alma” àqueles que estão à procura de remédio para suas enfermidades. Assim, vamos fazendo nosso trabalho, com essa esperança de estarmos oferendo cura integral aqui.

Fui convidado (na verdade me ofereci hehehe) para dar um curso no Seminário aqui. A diretoria se reuniu e resolveu me dar uma matéria no semestre que vem, sobre as cartas de Paulo. Fico feliz por poder servir a igreja de Angola no treinamento de sua futura liderança mas ao mesmo tempo dá um frio no estômago pois vou ter que ler muito. Bom, acho que venho fazendo isto pelos últimos 20 anos, tentando equilibrar muitas bolas ao mesmo tempo, como diz uma expressão em ingreis (eu não sô poca porcaria, não sô heheheh).

Copiei um trecho de uma mensagem da Norinha para uma amiga, falando um pouco da nossa vida aqui:

“Eu e uma amiga que mora aqui do lado de casa estávamos conversando sobre a possibilidade de começar a fazer alguma atividade com as crianças daqui das redondezas. Vamos ver. Ela está grávida e deve ir prá Alemanha em agosto com a família prá ter o neném lá, então não sei se deixo para o ano que vem, já que vamos viajar também no final deste mês prá Namíbia prá renovar o visto e ficar talvez umas 3 semanas.  O problema é que eu fico com o coração na mão, querendo fazer alguma coisa.O bairro aqui é bem pobre e tem criança demais nas ruas. Aqui morre gente demais, mas nasce demais também. O pessoal mais pobre tem sempre mais de 5 filhos. Uma loucura! Nada que já não conheçamos de perto, mas aqui a miséria é bem maior. A criançada fica pelas ruas esburacadas e completamente enlameadas, brincando no meio dos carros que passam como loucos. Só na semana passada, morreram duas pessoas atropeladas aqui na rua do complexo. É que passaram máquina na rua prá acabar um pouco com os buracos e aí os engraçadinhos enfiam o pé.  O pessoal não tem água  nem esgoto em casa. Não tem escola direito e nem acesso à saúde. Você acredita que estou até com saudade do SUS (rsrsrsrsrs). Aí pelo menos o pobre tem alguma esperança de ser atendido um dia e quando se acidenta tem prá onde ir. Aqui não. No hospital central, que é o maior daqui, falta tudo, inclusive bons médicos e enfermeiros.”

Bem, é isso, aqui a gente fica nessa mistura de vida e morte, em muitos sentidos, querendo ser instrumentos de Deus aqui. Orem por nós. A gente vai mandando notícias.

Legenda das fotos: as duas primeiras são de um dos passeios que fizemos aqui, no meio do mato, até a nascente de um rio, com rochas ao redor; a foto de um menino que estamos tratando com tuberculose generalizada (forma miliar) – graças a Deus está melhorando dia a dia; a filha e o filho de uma enfermeira, em dia de trabalho (os trabalhadores ou trabalhadoras muitas vezes trazem os filhos, pela sua abundância e falta de ter com quem deixá-los; o seminário onde vou dar aula, com um pedaço da serra que nos rodeia ao fundo. Ainda não me esqueci do blog, só não tive tempo ou disciplina ou coragem… Amamos vocês. Como disse no nosso culto de despedida, às vezes a distância aproxima (como disse meu “guru” Henri Nouwen) e nos sentimos muito próximos de vocês, de uma maneira muito afetuosa, carinhosa, calorosa.

Que Deus os abençoe.
Escrevam.

Eduardo (com Norinha, David, Paula e Rachel)


2 Comente esse Post

  1. Claudiea Says:

    Deus continue abençoando nesta caminhada maravilhosa. Estamos orando por vc’s.

  2. José Jr. Says:

    Deus ilumine e abençoe o caminho de vocês. Estou sempre orando e acredito que toda a comunidade.
    Continuem escrevendo…

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