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Batalha contra a incivilidade

Postado em 06 fevereiro 2017 por Cavernadeadulao

Aos nossos aparelhos de celular diariamente chegam imagens de assassinatos. A morte é celebrada; o mal, banalizado; quem mata, exaltado. Nas redes sociais, agressões, por conta de diferenças político-partidárias ou ideológicas, separam grandes amigos. Pessoas têm suas vidas expostas ao ridículo, seja pela divulgação de imagens, seja pela divulgação do que falaram num mau momento.

Taxa de 60 mil vidas interrompidas pelo crime anualmente alça o país ao posto de nação mais violenta do mundo. Presídios superlotados, nos quais jazem milhares que ainda não foram julgados pela Justiça, transformados em açougue. Brasileiro dizendo que quanto mais carne cortada, melhor. Silêncio por parte de quem ouve.

Valores que foram incorporados a nações desenvolvidas por intermédio do processo civilizatório são relativizados, tidos como ingênuos, rotulados de ideologicamente condicionados, a ponto de termos que discutir no Brasil o que não se discute mais em outras partes do mundo.

Deputados cospem em seus próprios pares, partem para o confronto físico e xingam uns aos outros em sessões do parlamento. Magistrados da Suprema Corte comportando-se de modo indigno ao cargo que ocupam, revelando publicamente o mesmo nível de descortesia presente no Congresso Nacional.

Na televisão, programas mantém alto índice de audiência por exporem o lado mais sórdido da vida humana. Quanto mais sangue, mais sucesso.

Até no meio que tanto amo, lamento ter que dizer publicamente, o caminho da polêmica, do achincalhe, da repreensão pública humilhante, da pregação que ofende, da identidade religiosa que precisa eleger um inimigo para ser forjada, é a via para a autopromoção e obtenção de popularidade.

Surgiu no meio evangélico uma geração de mal educados, estúpidos, descorteses, desalmados e que, a despeito da ruptura com o verdadeiro espírito cristão, são celebrados por aqueles que se dizem seguidores de Cristo. Um Cristo que parece ter-lhes ensinado a serem venenosos como as serpentes, e abrirem mão da ideia idiota de ser ovelha num mundo de lobos. Não sei que tipo de mensagem os que superlotam os templos evangélicos estão ouvindo.

Estamos vivendo um momento de inflexão na nossa cultura. Há uma jihad entre nós. Estamos perdendo a afeição natural. Grandes injustiças não nos fazem mais chorar, exceto quando nos sentimos atingidos por elas ou são beneficiados aqueles a quem odiamos.

Termino de forma que muitos podem considerar a mais patética, ingênua e piegas que se possa imaginar: gentileza gera gentileza. Precisamos semear amor. Disseminar doçura através de pequenos gestos. Não tratar ninguém de modo indigno. Fazer todo aquele que cruzar nosso caminho voltar para casa se sentindo amado por nós e tendo uma ideia do que o próprio Deus sente pela sua vida.

“… se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem”. Se tivesse recursos, espalharia, em grandes cartazes, por todo o país, essa mensagem do apóstolo Paulo, a começar pelas portas das igrejas.

Antonio Carlos Costa, pastor presbiteriano e ativista social do ONG Rio da Paz.
Fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/batalha-contra-a-incivilidade

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Os Macaquinhos – Eric Peruca

Postado em 17 outubro 2016 por Cavernadeadulao

O abandono de Deus resultou também no abandono do homem, o humanismo não tem força para sustentar sua premissa de que “o homem pode ser seu próprio Deus”. Na performance de arte denominada “Macaquinhos”, temos um claro sintoma deste problema, o abandono de Deus não nos fez mais homens, mas em animais, irracionais.

Esta obra revela mais problemas do que parece. Vai muito além de uma estética trágica. Ela evidencia um mergulho na tragédia da animalização, ou seja, essa louca ânsia por liberdade que terminou em redução das percepções, da capacidade de distinção e da racionalidade. O ânus como centro da obra é só um subterfúgio, a agressividade escamoteia o conflito negando a dramaticidade do presente.

Sinceramente, não penso que o problema desta obra seja o incômodo que ela causa, e neste ponto concordo com os artistas. O universo provocativo tem seu lugar primordial na arte contemporânea: “Sabemos que a nudez e o próprio corpo humano, de um modo geral, sofrem o estigma de serem tabus nessa sociedade que produzimos juntos. Como ‘Macaquinhos’ aborda uma parte subestimada do corpo humano, e para isso lida necessariamente com a nudez, é de se esperar reações de cunho mais conservador”, relatam os artistas. Neste ponto concordo, mas não se trata de uma obra sobre aceitação do próprio corpo, é sobre as “minorias e o desejo” segundo os atores dessa peça teatral. Aí é que mora o problema.

Também não penso que o problema seja a falta de senso estético, ou sensibilidade (nem vou entrar no mérito da coisa ” isso é ou não arte”. Pra mim o problema não é esse). Não é sobre o resultado estético, ou o processo de produção ou a técnica empregada, mas todo o corpo teórico embalado nessa casca.

O que está passando batido é a argumentação que faz ligação entre os excluídos com a primitivização voluntária. Percebam: “liberdade é voltar a ser bicho porque bicho tem o desejo instintivo como mola e suas ações, não passam pelos crivos castrativos da moral e da ética”. Como propõe Gilles Deleuze e Felix Guattari, (Anti-Édipo) estamos diante de uma nova teoria do desejo como motor da história. O resultado é essa coisa aí: a equivocada invenção de que precisamos abandonar as constituições de uma antropologia religiosa e transcendente, para chafurdar na lama da contingência animalesca.

O que vemos é bem mais que uma obra de arte ousada. Estamos diante de um grito de nosso tempo, “queremos ser bicho para poder fazer qualquer coisa”, porque ser humano é saber que posso fazer tudo, mas não faço porque não me é devido. Essa liberdade desevolutiva é bem mais sutil do que se percebe. Ela está nos discursos políticos, na ideologia de gênero, na marcha das vadias, e na maioria dos grupos que assumem o desejo e o afeto como os meios essenciais de interação e percepção do eu com a realidade. Ser humano é assumir a responsabilidade de racionalizar o desejo, domá-lo, e isso é o que nos separa dos cachorros, das minhocas, do cavalos, dos “macaquinhos”, e etc.

O homem tentando ser livre sem Deus, ou livre da ideia de Deus, se submete ao ridículo de ser bem menos do que pode ser. Não passa de um preguiçoso moral, doente, e vira bicho. Se você está tentado ou pensando em ser um “macaquinho”, e/ou está prestes a sucumbir aos apelos sedutores do desejo irracional, você precisa conhecer a proposta do Senhor Jesus. Vai por mim: É BEM MELHOR.

Deus quer fazer-lhe um homem e uma mulher no máximo de suas capacidades e potencialidades. Este é o discurso do cristianismo. Já o do humanismo, segundo sua última vitrine é: “Vire bicho e enfie o dedo no rabo”.

Eric Rodrigues (Peruca) é pastor da Igreja Anglicana Âncora em Vitória (ES)

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Crente Cri-Cri x Crente Bobo

Postado em 23 fevereiro 2016 por Cavernadeadulao

É pecado ser crítico? Existe algum problema em obedecer cegamente o pastor? Vou para o inferno se falar mal da igreja? Ser crítico da cultura gospel é suficiente?

Ilustração - Judá Ramos

Ilustração - Judá Ramos

Essas e outras perguntas nos vêm à mente quando analisamos a realidade vivida pela igreja. Diante desse dilema, quem nunca se deparou com a “chatura” daqueles que só sabem criticar? Quem nunca ficou com preguiça daquele fiel, meio abobado, que parece viver sempre saltitante em sua Disneylândia evangélica? Surgem então dois tipos ideais: o crente cri-cri e o crente bobo.

O crente cri-cri tende à crítica excessiva. Nesse extremo gastasse mais energia combatendo os podres da igreja do que edificando uma igreja saudável. O grande risco é aquele velho jargão nietzchiano, adorado pela galera do black metal, de que quando olharmos para o abismo, o abismo olhará para dentro de nós. Logo, o crente cri-cri pode gerar um quadro semelhante ao de muitas pessoas envolvidas nas lutas contra as opressões sociais de raça e gênero, o ressentimento. Este quadro se desenvolve quando a identidade é definida por aquilo que se combate, sendo então estabelecida uma relação de dependência com o problema. Logo, a superação do mal significaria a perda do que se é, ou daquilo que se pensa ser. Por isso o crente cri-cri tem dificuldades de falar sobre o cristianismo sem destilar seu veneno contra os inúmeros vacilos de nossa subcultura evangélica. Mas nem tudo está perdido, pois existe uma vacina! Basta ser mais apaixonado pela beleza do que incomodado pela feiúra, mais sedento de conhecer as Escrituras do que indignados com a superficialidade bíblica das igrejas, mais fascinado com a Shalom e pelo caráter justo de Deus do que incomodados pela injustiça. Adoração é solução, caminho de liberdade.

O crente-bobo, no outro extremo, tende à ingenuidade. Despreza-se a influência da Queda quando se analisa a igreja. É ignorado o fato de que nossas lideranças, nossos modismos e nosso ethos igrejeiro podem estar plenamente contaminado pelo pecado. Nesse grupo é comum encontrar o “crente empolgado”, crente que adora gritar “uhuu” e também aquele que vive de jargões! Ao crente-bobo é ensinado que ser crítico é ser rebelde e sendo rebeldia um pecado pior o que a feitiçaria, ele aceita. É por essa falta de discernimento que temos dado poder à líderes como Cleôncio*, Gerivaldo*, Vampeta* e Ludovico* (* substitua por qualquer líder evangélico em evidência que você não admira). A ingenuidade gera “ovelhas lobotomizadas”, marionetes, nas mãos de líderes personalistas que constroem um verdadeiro império em torno de si mesmo. A vacina é aquele velho e saudável espírito bereano, de conferir nas Escrituras se “é isso mesmo que o pastô falô” (Atos 17:11). Doses de cultura geral, de imersão em aspectos da graça comum, ajudam bastante também.

O fato é que não temos pra onde correr, se não ter senso crítico está fora de cogitação, não podemos esquecer os perigos da crítica. Mas qual seria um bom exemplo da harpombamonia de ambas? Jesus Cristo, diria John Stott. Em seu livro “O que Cristo pensa da Igreja”, ele usa como exemplo a análise que Jesus faz das igrejas através das cartas em Apocalipse (Cap 2 e 3). Cristo ao analisar as comunidades cristãs aponta suas características positivas e negativas. Por isso dizemos SIM, é possível um equilíbrio. Pois, se discernimento ecoa com senso crítico, a leveza encontra melhores condições para florescer no coração daquele que é como criança. É por isso que nosso Messias ensina: Sejais astutos como a serpente e mansos como a pomba (Mt 10: 17)!

E para terminar deixo uma paráfrase de Chê Guevara para vocês: “Há que ser crítico, mas perder a ternura, a humildade e a leveza jamais!”

MATHEUS LOURES – https://maloures.wordpress.com/

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Boko Haram sequestra mais garotas

Postado em 13 maio 2014 por Cavernadeadulao


Um número que pode variar entre oito e onze adolescentes foram sequestradas em 4 de maio pelo grupo Islâmico Boko Haram. Em 14 de abril, o mesmo grupo já havia levado mais de 230 garotas estudantes, em sua maioria cristãs, da cidade de Chibok, região norte do país.

De acordo com fontes locais, um grupo de homens fortemente armados invadiu a vila de Warabe, próximo a Gwoza, no estado de Borno, na noite de domingo 4 de maio. Eles abriram fogo antes de levar oito garotas com idades entre 12 e 15 anos. Novos relatos dão conta de que uma vila a cinco quilômetros de distância de Warabe também foi invadida e mais três garotas foram levadas pelos homens.

Na segunda-feira (05/05), o Boko Haram, que tem sido responsável por uma campanha na Nigéria para impor a lei islâmica há cinco anos, assumiu a responsabilidade pelo sequestro das estudantes da escola de Chibok.

“Eu sequestrei as garotas. E vou vendê-las no mercado em nome de Alá”, disse Abubakar Shekau, líder do grupo terrorista em um vídeo de 57 minutos, obtido pela agência de notícias Agence France Presse (AFP).

“Vou vendê-las como escravas em nome de Alá. Há um mercado onde vendem seres humanos”, disse o homem no vídeo.

“Eu disse que a educação ocidental tem que parar. As garotas devem sair da escola e casar”, disse ele. “Eu poderia casar com uma menina de 12 anos; até mesmo uma de nove anos poderia casar comigo”.

Semana passada, alguns pais e líderes comunitários de Chibok expressaram seu medo de que as meninas sequestradas fossem levadas do país para Camarões ou Chade, e que lá fossem forçadas a se converter ao islamismo e casar com muçulmanos. Outros relatos dados à BBC dizem que o “dote” de uma garota foi estipulado: um preço de 2.000 Nairas, o que equivale a 27,44 reais.

Dentre as 230 garotas sequestradas da escola de Chibok, ao menos 165 são cristãs, de acordo com uma lista de nomes e uma declaração emitidas em 4 de maio, por um ex-presidente de uma afiliada da Associação Cristã da Nigéria. Nem o governo nem as autoridades escolares verificaram a precisão e veracidade da lista.

A lista, emitida pelo evangelista Matthew Owojaiye, diz que Chibok tem 90% da população formada por cristãos, o que implica que este sequestro em massa tenha motivação religiosa.

Por conta deste ato criminoso, o presidente Goodluck Jonathan está sob intensa pressão nacional e internacional. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, ofereceu auxílio militar e assistência jurídica, o que foi prontamente aceito pelo governo nigeriano.

O desaparecimento destas garotas suscitou um grande clamor via mídia social com a hashtag #bringbackourgirls. Neste momento, o país se prepara para sediar o Fórum Econômico Mundial, com a presença de cerca de 900 líderes mundiais de negócios.

Extraído: https://www.portasabertas.org.br/noticias/2014/05/3135834/
Fonte: World Watch Monitor
Tradução: Jorge Alberto – ANAJURE

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Noé – um drama psicológico

Postado em 24 abril 2014 por Cavernadeadulao

Finalmente consegui assistir “Noé”, de Darren Aronofsky. Finalmente pude entender porque tanta polêmica quanto ao filme, porque tanta gente o detestou e porque muitos países muçulmanos proibiram sua exibição. Já me perguntaram a respeito, então, tentarei comentar.

Já peço desculpas a quem porventura ler este meu texto e ainda não viu o filme, porque será impossível não fazer “spoiler”. Já tinha lido muitas críticas contundentes ao filme. Então fui ao cinema predisposto a não me deixar influenciar por tais críticas. Acho que consegui. Darren Aronosfsky dirigiu o muito bom “O Lutador”, de 2008, com Mickey Rourke (não vi dele o aclamado “Cisne Negro”, muito elogiado pela crítica). Li alhures que Aronofsky nasceu judeu, mas se tornou ateu. Isto explica muita coisa do filme.

A bronca da maioria dos crentes evangélicos e dos muçulmanos com o filme se deve ao fato de esperarem uma adaptação literal e fidelíssima do relato do dilúvio no texto bíblico, no caso dos evangélicos, e a versão do mesmo no Corão, no caso dos islâmicos. Aronofsky não faz nada disto.

Interessante que, ao ver o filme, eu suspeitei que o diretor se inspirou em fontes judaicas extrabíblicas. Ele deve ter se inspirado em algum “midraxe”. Tem uma cena lá pelas tantas, quando a família de Noé já está na arca, em que o patriarca conta a história da criação. A impressão que se tem ao ver as imagens que passam ao som da voz de Russell Crowe é que o diretor se inspirou no “Zohar – O Livro do Esplendor” ou em algum texto cabalístico medieval1. No Zohar, a criação é descrita em termos impressionantemente semelhantes ao que a física quântica do século XX descreveria como o “Big Bang”. Isto está claro na narrativa de Aronofsky pela ênfase que dá à luz primeva, à luz dos seres celestiais, a escolha que o primeiro casal teve que fazer quanto a seguir ou não a luz. O Criador de Aronofsky faz lembrar o Ein Sof cabalístico, um princípio de luz e vida, mas não um ser pessoal propriamente. Isto fica claríssimo quando depois do dilúvio não há a belíssima cena do texto bíblico que apresenta a aliança do Senhor com Noé, cujo símbolo é o arco-íris. Claro que não concordo com a concepção de Deus de Aronofsky. Talvez ele seja agnóstico, mas não ateu de carteirinha.

E por falar em seres celestiais, é obrigatório falar sobre o aspecto do filme que mais tem gerado polêmica: os “Watchers”, ou Vigilantes. A tradução brasileira os apresentou como “anjos caídos”. Ora, para os evangélicos brasileiros, anjos caídos são demônios. Mas no filme de Aronofsky os anjos caídos não são demônios. São anjos castigados por terem ajudado os homens. Aqueles monstrengos desajeitados, verdadeiros “Transformers” de pedra eram, na verdade, luz presa em “exoesqueletos” de pedra. De onde o Aronofsky tirou isto? De algum midrashe? Gostaria de saber. A questão aí é a interpretação dos “gigantes” – nefilim – do complicadíssimo texto de Gênesis 6. Este texto é difícil demais por não ter paralelo com qualquer outro. Uma leitura simples do texto bíblico irá entender a passagem como falando de anjos caídos, que neste caso não seriam anjos castigados como no filme de Aronofsky, mas anjos malvados mesmo, que tiveram filhos com mulheres humanas, gerando assim um “tertium quid”, um terceiro gênero, nem plenamente humano nem plenamente angélico. Mas isto seria mitologia grega, algo estranho ao todo da tradição bíblica. Entender o texto como falando de duas linhagens, a de Caim e a de Seth, é a meu ver um tanto forçado (esta interpretação foi sugerida já no tempo da Patrística, talvez para evitar os problemas e constrangimentos que uma leitura literal do texto provoca). Sou obrigado a concordar com o falecido biblista germânico-espanhol Luis Alonso Schökel que dizia que simplesmente não sabemos o que este texto quer dizer.

Aronofsky acerta nos aspectos psicológicos do seu filme. O enlouquecimento de Noé , obcecado por cumprir sua missão a qualquer custo, angustiado por não entender o que de fato o Criador quer dele, confundindo sua opinião com a opinião do Criador nos faz parar para pensar. Pois isto é algo que acontece com muita frequência. Confundir a vontade própria com a vontade de Deus é extremamente comum entre religiosos. A obsessão de Noé contrasta fortemente com a lucidez de Ila, sua filha adotiva, já no fim do filme, que dialogando com seu pai adotivo e sogro dá uma pista para entender a lição teológica do filme. O discurso antropocêntrico de Tubalcaim (interpretado magnificamente bem por Ray Winstone) faz lembrar o Satã de John Milton. E por falar no inimigo, com perdão do trocadilho infame, que diabo é aquele negócio da pele de cobra que resplandecia e que geração após geração era guardada como um talismã ou sei lá o que? De onde o Aronofsky tirou aquilo?

A cena do porre de Noé depois do dilúvio ficou muito pobre a meu ver. Poderia ter sido melhor desenvolvida e explorada.

Aronofsky exagerou sim na licença artística, e muito. Tal como comentado acima, tenho minhas suspeitas de onde ele se inspirou, quais foram ou quais teriam sido suas fontes. O que está claro é que este é o conto do dilúvio não segundo qualquer midrashe, nem segundo a Bíblia, mas segundo Aronofsky. Todavia, penso que talvez algumas de suas liberdades não estejam tão equivocadas assim como muitos pensaram. Seu Noé vegetariano e com preocupações ecológicas é, no mínimo, interessante. Mas não gostei de seu relato, ao mesmo tempo, criacionista e evolucionista. Ah, talvez Aronofsky seja evolucionista-teísta.

Enfim, o filme tem acertos e erros. Não gostei de alguns aspectos do mesmo, gostei de outros. Acho que mais gostei que não gostei. Muito melhor que um péssimo sobre o dilúvio no qual o Jon Voight faz o papel de Noé. Este é tão ruim que não aguentei ver até o final. O filme de Aronofsky não é ferramenta evangelística, e isto decerto decepcionou muita gente. Noé é um filme complexo. Entendi o filme como um drama psicológico, talvez uma tentativa de acerto de contas de Aronofsky com o Criador – ou com ele mesmo.

Nota:
1. A cabala judaica não tem nada de exotérica ou ocultista ou de feitiçaria ou coisa semelhante. A cabala é uma tentativa de místicos judeus medievais de entender o ser de Deus e como se deu a criação do cosmos.

• Carlos Caldas é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2000). Um dos loci de sua investigação acadêmica é a relação entre a teologia e as artes.

Fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/noe-um-drama-psicologico

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